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Sinopse
 

      O conflito é inerente à vida em sociedade, logo às organizações, incluindo as escolas, em que “a própria natureza das organizações contribuem para as situações de conflito” (Hall,2004 p. 119).
Todos os conflitos são proliferadores de interrogações (questionar já por si gera  conflitos), dependendo depois da forma como são interpretados pelas partes ou pela figura do mediador. A sua inevitabilidade é impossivel. Sempre que se coloque a situação de mais de uma pessoa estarem juntas, relacionando-se entre si (o homem é um animal social), em que ninguém é igual a ninguém, (comportamentos e atitudes distintos ou mesmo ideias divergentes) facilmente o conflito se estabelece.

    

O Conflito
 A multiplicidade de definições para o conflito é resultado de um crescente interesse pelo tema no âmbito das Ciências Organizacionais.
     Assim para Boulding (1962), o conflito ocorre quando, numa interacção, pelo menos uma das partes envolvidas toma consciência da existência de discrepâncias e ou desejos incompatíveis e irreconciliáveis entre as partes.
     Segundo Pruitt & Rubin (1986), o conflito é uma divergência de interesses percebida ou o acreditar que as aspirações das partes não podem ser alcançadas em simultâneo.
     Para Deutsch (2003), surge um conflito quando existem actividades incompatíveis, sendo que duas acções são incompatíveis quando a presença de uma inibe, obstrui, interfere ou, de alguma forma, torna a outra menos eficaz.
Da análise das definições anteriores podemos concluir que o conflito é inerente à vida em sociedade Assim temperamentos, pessoas, instituições, interesses, posições, necessidades, pontos de vista diferentes, simpatias, antipatias, muitos são os factores que podem influenciar a postura básica como as pessoas se colocam nas várias situações sociais e de trabalho e que as levam a estarem mais dispostas a cooperarem entre si, a procurarem soluções negociadas para conciliarem as suas diferenças ou a assumirem posições conflituantes. Poderíamos dizer que todo o conflito envolve diferenças entretanto nem toda a diferença implica necessariamente que possa vir a surgir um conflito.
     O conflito ocorre, basicamente quando um dos sujeitos vivencia a diferença entre si e o outro, de forma a sentir que a sua acção, as suas imagens, sentimentos ou objectivos são obstaculizados pelo outro. O conflito é pois um fenómeno subjectivo, podendo existir causas objectivas que o justifiquem, mas ele só surge se essas causas forem sentidas como tal pelos sujeitos.
     Do exposto conclui-se que o conflito é inerente à vida em sociedade, logo às organizações, incluindo as escolas, em que “a própria natureza das organizações contribuem para as situações de conflito” (Hall,2004 p. 119).
Nos modelos de gestão clássicos o conflito era tido como algo prejudicial, sendo na maioria das vezes ignorado. No entanto, tendências contemporâneas visualizam-no como sendo “parte do estado normal de uma organização” ”(Hall, 2004, p.124) em que as suas consequências podem ser “positivas e negativas para os indivíduos” (ibidem) e, dependendo da forma como são geridos, incidem significativamente no comportamento organizacional.
     Robbins (2004) assinala como “consequências funcionais” ou positivas do conflito, com melhoria do desempenho do grupo “quando melhora a qualidade das decisões, estimula a criatividade e a inovação, encoraja o interesse e a curiosidade dos membros do grupo, oferece um meio para o arejamento dos problemas e a liberação das tensões e fomenta um ambiente de auto-avaliação e de mudanças”, e como consequências “disfuncionais” ou negativas, com prejuízos para o desempenho do grupo e dos resultados a oposição descontrolada que “ leva ao descontentamento, que contribui para a dissolução dos laços comuns o que acaba causando a destruição do grupo”( pp. 177-178) .

Boulding, R. (1962). Conflict and defense: a general Theory, New York: Academic Press.
Deutsch, M. (2003). Cooperation and Conflict: a personal perspective on the history of the social psychology study of conflict resolution in  M. A. West, D. Tjosvold e K. G. Smith (Eds.), International Handbook of Organizational Teamwork and Cooperative Working (p. 8-43 ) Chichester, John wiley & sons, Ltd.
Hall, Richard H.(2004). Organizações, estruturas, processos e resultados. São Paulo: Prentice- Hall.
Pruitt, D.G,. Rubin, J.Z. (1986). Social conflict: escalation, stalemate and settlement. New York: Random House.
 Robbins, S. P. (2004). Fundamentos do comportamento organizacional. São Paulo: Prentice-Hall.


     A sociedade é constituída por organizações sociais, grupos e indivíduos que possuem percepções e perspectivas próprias da realidade que os circunda. Dado isto, o conflito encontra-se presente na sociedade, uma vez que cada grupo e/ou indivíduo apresenta as suas convicções, podendo estas colidir.
     Trata-se de um conceito em que, no dizer de Noronha (1992), as pessoas apresentam comportamentos e acções que provocam reacções. Estas podem ser de indiferença, agrado ou desagrado, dando origem ao conflito, na medida em que se criam estímulos provocando respostas antagónicas, incompatíveis ou divergentes.
     Crawford & Bodine (1996) e Torrego (2003) explicam a origem do conflito em três fontes: escassez de recursos (tempo, dinheiro e propriedade), diferentes valores (crenças, prioridades e princípios) e quatro necessidades psicológicas básicas:
§    Pertença: conseguir oportunidade para partilhar e cooperar, utilizando o amor e a amizade.
§    Poder: capacidade de conseguir ser reconhecido e respeitado.
§    Liberdade: capacidade de fazer escolhas livres na vida.
§    Prazer: capacidade de se rir e divertir.
     Este conceito e outros,  como “Bullying”, “Mediação”, “Pares”, “Intervenção sistémica”, sobressaem claramente em todos os trabalhos disponibilizados pelos diversos grupos, estando todos eles, de alguma forma, encadeados uns nos outros, independentemente das suas especificidades.
     Falar em resolução de conflitos em contexto escolar é algo relativamente recente. Os próprios programas associados à resolução de conflitos (tutorias), surgem como tentativa de resposta às preocupações manifestadas por professores, encarregados de educação e sociedade em geral, relativamente às diversas formas de violência constatadas nas escolas, com o objectivo de proporcionar aos alunos o conhecimento, e posteriormente a aplicação, de habilidades sociais e estratégias para se auto-regularem e se auto-controlarem e paralelamente com a intencionalidade de melhorarem o clima relacional existente.
     Ao falar em “violência” indubitavelmente o tema recai sobre a problemática do Bullying, fenómeno que toma aspectos preocupantes, tanto pelo seu crescimento, quanto por atingir faixas etárias, cada vez mais baixas, relativas aos primeiros anos de escolaridade, podendo este ser encontrado em qualquer nível de ciclo de escolaridade, dentro de uma escola quer esta seja pública ou privada, rural ou urbana. Os próprios dados, recentes apontam no sentido da sua disseminação por todas as classes sociais e uma tendência para um aumento rápido desse comportamento com o avançar da idade.
     Torna-se pertinente fazer-se uma distinção entre Bullying e possíveis maus relacionamentos, uma vez que não podemos confundir este com a indisciplina ou mesmo os maus comportamentos. As características predominante deste conceito, passam pela: vitima indefesa, persistência/continuidade, dor tolerada, desigualdade de poder, dirigida a um sujeito e exercida individualmente ou em grupo, exercidos sempre entre amigos e nunca entre estranhos, cruzando-se estas nos dissemelhantes tipos de Bullying, (físicos, verbais, psicológicos sociais e sexuais, em muitas situações os diversos modos sobrepõem-se).
     Este fenómeno pode então definir-se como uma conduta agressiva de carácter repetitivo, intencional e prejudicial, dirigida por um indivíduo ou por um grupo de indivíduos contra outro, que não é capaz de defender-se a si mesmo, e que se desenrola em contexto escolar (Ramirez, 2001).
     A sua definição passa ainda por uma distinção entre comportamentos verbais e físicos, Casanova, (2000), Craig (1998), Ericson (2001). Independentemente da expressão do comportamento ser directo ou indirecto, surge ainda uma outra categoria de comportamento referenciada por alguns autores como sendo psicológica (Ericson, 2001) ou relacional (Bjorkqvist, Lagerspetz & Kaukiainen, 1992).

Forma de
Agressão
Expressão
Comportamentos
Física
Directa
Bater; dar pontapés; dar estalos; dar murros; dar palmadas; passar rasteiras; empurrar; sacudir; puxar o cabelo; beliscar; morder; acotovelar; destruir propriedade do colega; tirar os pertences ao colega; cuspir no colega; perseguir o colega; impedir/obstruir a passagem do colega.
Indirecta
Recrutar um colega para agredir outro; roubar ou esconder objectos dos colegas; partir ou destruir objectos dos colegas.
Verbal
Directa
Gozar; chamar nomes; insultar; pôr alcunhas; ser sarcástico; ameaçar verbalmente; importunar ou aborrecer deliberadamente; emitir comentários maldosos/maliciosos; rebaixar; criticar aparência do colega; admoestação racial.
Indirecta
Espalhar rumores e/ou mentiras; escrever notas ou graffits maldosos; intrigar; caluniar/difamar; dizer coisas desagradáveis pelas costas do colega.
Relacional
Directa
Dizer ao colega que ele não pode brincar com eles; afirmar ao colega não ser amigo dele; evitar/ignorar o colega; dizer que deixa de ser seu amigo a menos que faça o que ele lhe pede.
Indirecta
Excluir outros do grupo; manipular redes de amizade; encorajar os colegas a não brincarem com outro colega; tornar-se amigo de outro por vingança; não convidar deliberadamente o colega para festas ou saídas; dizer mentiras sobre o colega para outros não se darem com ele.
Psicológica
Directa
Extorsão; coacção; ameaçar gestualmente; chantagear; utilizar gestos obscenos.
Indirecta
Enviar e-mails ameaçadores/desagradáveis; fazer chamadas anónimas ameaçadoras/ desagradáveis.
Sexual
Directa
Exibicionismo; voyerismo; assédio; comentários ou insultos acerca de partes sexuais do corpo do colega; gozar acerca da orientação sexual do colega; apalpar ou agarrar alguém de um modo sexualmente sugestivo.
Indirecta
Espalhar rumores acerca de actividades sexuais do colega; divulgar comentários ou imagens de carácter sexual.

     Não estamos perante problemas recentes, exclusivos dos nossos dias. Defrontamo-nos com fenómenos que nos afectam  a todos. A sua complexidade obriga a escola a criar condições que promovam a garantia de um ambiente seguro, em termos físicos ou emocionais.

Bjorkqvist, K., Lagerspetz, K. & Kaukiainen, A. (1992). Do girls manipulate and boys fight ? Developmental trends in regard to direct and indirect aggression. Aggressive Behavior, 18, 117-127.
Casanova, R. (2000). Questions d’ecole: prévenir et agir contre la violence dans la classe. Paris: Hatier.
Craig, W. (1998). The relationship among bullying, victimization, depression, anxiety, and aggression in elementary school children. Personality and Individual Differences, 24 (1), 123-130.
Crawford, D. & Bodine, R. (1996). Teachers Thought Processes. In Wittroc, M. C. (Edition). Hand book of research on teaching - A project of the American Educational Research Association. New York: Collin Macmillan Publishing Company, pp. 225-298.
Ericson, N. (2001). Adressing the problem of juvenile bullying. Washington: U.S. Department of Justice.
Noronha Zélia de; Noronha, Mário de (1992). Escola, Conflitos - Como Evitá-los, Como Geri-los? Lisboa: Escolar Editora.
Ramírez, F. (2001). Condutas agressivas na idade escolar. Amadora: McGraw Hill.
Torrego, J. C.(coord.) (2003). Mediação de Conflitos em Instituições Educativas. Manual para Formação de Mediadores. 1ª Edição. Porto: Asa.